Linha 5 sob o Lago de Michigan reacende debate sobre custos, segurança e soluções técnicas
Paulo Roberto Gomes Fernandes nota os desdobramentos mais recentes envolvendo o projeto do túnel que deverá abrigar um novo trecho do Gasoduto da Linha 5, sob o Lago de Michigan, nos Estados Unidos. O empreendimento voltou ao centro do debate após a divulgação de um relatório elaborado por uma ONG canadense, que aponta custos muito superiores aos inicialmente estimados para a obra. A Enbridge, operadora do gasoduto, reagiu de forma imediata, contestando os números apresentados e reafirmando a intenção de avançar com o projeto assim que obtiver as autorizações finais dos órgãos reguladores norte-americanos.
O estudo foi divulgado pelo Institute for Energy Economics and Financial Analysis (IEEFA), organização ligada a grupos indígenas e ambientalistas do Canadá, e afirma que o custo do túnel poderia ser até três vezes maior do que o valor originalmente anunciado. Segundo o relatório, diante da transição energética e da eletrificação crescente, a Enbridge deveria avaliar se ainda faz sentido investir em uma infraestrutura de combustíveis fósseis com mais de sete décadas de operação.
Contestação da Enbridge e cenário regulatório
A Enbridge rebateu publicamente as conclusões do relatório e informou que segue trabalhando para iniciar as obras assim que receber o sinal verde do Corpo de Engenheiros do Exército dos Estados Unidos, órgão responsável pela última licença pendente. Paulo Roberto Gomes Fernandes explica que o projeto já obteve aprovações relevantes do Departamento de Meio Ambiente, Grandes Lagos e Energia de Michigan (EGLE), em 2019, e da Comissão de Serviço Público de Michigan (MPSC), em 2023. A expectativa, no início de 2025, é que o rascunho da declaração de impacto ambiental federal seja divulgado nos próximos meses.
Construído em 1953, o oleoduto Linha 5 transporta diariamente cerca de 540 mil barris de petróleo bruto leve, petróleo sintético leve e líquidos de gás natural. Ele conecta o noroeste de Wisconsin à cidade de Sarnia, no Canadá, atravessando o Estreito de Mackinac, entre os lagos Michigan e Huron. Justamente por atravessar uma das regiões mais sensíveis do ponto de vista ambiental dos Estados Unidos, a Linha 5 é alvo de disputas judiciais e pressões para seu encerramento definitivo.
Histórico de incidentes e proposta do túnel
Paulo Roberto Gomes Fernandes elucida que, nos últimos anos, a Enbridge reconheceu problemas pontuais na infraestrutura existente. Em 2014, foram identificadas falhas no revestimento protetor do oleoduto no Estreito de Mackinac. Já em 2018, uma âncora danificou a tubulação em três pontos distintos. Esses episódios reforçaram o debate público e levaram à criação da Mackinac Straits Corridor Authority, entidade responsável por viabilizar a solução do túnel como alternativa mais segura.

O projeto da Linha 5 no Lago de Michigan volta a colocar em pauta desafios de engenharia, viabilidade econômica e gestão de riscos, destaca Paulo Roberto Gomes Fernandes.
A proposta prevê a construção de um túnel de aproximadamente sete quilômetros de extensão, com diâmetro interno em torno de cinco metros, escavado abaixo do leito rochoso do lago e revestido em concreto. Dentro desse túnel, seriam instaladas novas tubulações, afastadas das correntes, do gelo e do risco de colisões externas.
Divergências sobre custos do projeto
Paulo Roberto Gomes Fernandes destaca que a estimativa inicial divulgada em 2018 apontava um custo da ordem de US$ 500 milhões. O relatório da ONG, no entanto, sugere que mudanças no escopo e atrasos regulatórios podem elevar significativamente esse valor. Um e-mail de 2020, citado no estudo, menciona uma possível elevação de até 90% nos custos ao longo do desenvolvimento do projeto, o que levaria o investimento para perto de US$ 950 milhões, sem considerar a inflação acumulada.
A Enbridge, por sua vez, afirma que revisões de escopo e ajustes de engenharia são comuns em projetos dessa magnitude. Em manifestações públicas, a empresa declarou que ainda não há uma nova estimativa final de custos e reforçou que mantém garantias financeiras superiores a US$ 1,8 bilhão, conforme exigido pelo acordo firmado com o estado de Michigan.
Demanda energética e horizonte de longo prazo
Apesar das críticas de grupos ambientalistas, a Enbridge sustenta que a Linha 5 continua sendo estratégica para a região dos Grandes Lagos. De acordo com a empresa, a demanda por energia, especialmente por gás natural e derivados, deve crescer até pelo menos 2040. Os líquidos de gás natural transportados pelo oleoduto são fundamentais para a produção de propano, utilizado no aquecimento residencial e comercial em Michigan e em estados vizinhos.
Nesse contexto, Paulo Roberto Gomes Fernandes frisa que o projeto do túnel é apresentado como uma solução de longo prazo para conciliar segurança operacional, proteção ambiental e estabilidade no abastecimento energético. A expectativa é que a obra reduza drasticamente os riscos associados à infraestrutura atual, ao mesmo tempo em que preserve uma rota considerada vital para a economia regional.
Enquanto o debate segue no campo técnico, jurídico e político, especialistas do setor acompanham de perto a definição sobre o modelo construtivo a ser adotado. A complexidade do lançamento da tubulação em um túnel com longos trechos em descida e subida acentuadas coloca o projeto entre os mais desafiadores da engenharia dutoviária contemporânea, reforçando a necessidade de soluções já testadas em ambientes semelhantes ao redor do mundo.
Autor: Richar Schäfer







